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sábado, 19 de outubro de 2019

Coringa

 Nessa guerra simbólica entre Marvel x DC Comics, com filmes protagonizados por seus super-heróis populares, quem ganha é o público, que confere toda a diversidade de fitas. Se parecia, para alguns, que a Marvel estava levando a melhor, a DC (ou Warner) demonstrou que produzir um filme protagonizado por um anti-herói, feito com muita seriedade, consegue superar a batalha de egos de diversos heróis envolvidos numa só projeção, como é o caso da série Avengers.

 Quem diria, o diretor Todd Phillips (também roteirista, ao lado de Scott Silver), responsável por comédias escrachadas como a série "Se Beber, Não Case" e "Um Parto de Viagem", assumiu essa prdoução em que, por mais que Coringa seja conhecido por ser uma figura irônica e diabolicamente engraçada, quase não há espaço para a comédia; tudo aqui consegue ser mais sombrio e tenebroso que qualquer filme na nova franquia do Batman, comandada por Christopher Nolan.

 O nosso popular "herói" é vítima constante de bullying por ser desajeitado e ter um péssimo aspecto físico. Além disso, sofre de uma doença em que, quando está nervoso, começa a gargalhar freneticamente. Enfim, trata-se de um perdedor, desprezado por todos. A situação piora quando ele é demetido de seu trabalho, no qual ele se disfarçava de palhaço para animar as pessoas em eventos. As coisas fogem da normalidade de vez quando descobre um segredo envolvendo a identidade de seu possível pai. A partir daí, consumado pela ira, Arthur Fleck torna-se Coringa, e está disposto a fazer valer sua justiça.

 Não me recordo da classificação etária do filme, e já informo que ele é bastante pesado para crianças e pré-adolescentes. A trilha sonora densa e tocante sugere que o público está assistindo a uma produção de horror, gênero que se aproxima bastante da narrativa. Mais uma vez, palmas para Todd Phillips, que mostrou versatilidade atrás das câmeras, ao abandonar o seu lugar comum na comédia. O que também é facilmente perceptível é a homenagem aos filmes do cineasta Martin Scorsese, sobretudo fitas como "Taxi Driver" e "O Rei da Comédia", que surgem na mente do espectador mais familiarizado com o cinema, quando observa diversas cenas. Falando em Scorsese, que tem o hábito de registrar suas tramas em Nova York, a Gotham City daqui é uma fotografia idêntica de Nova York, sobretudo nas cenas dos guetos noturrnos.

 Mas o que mais me chamou a atenção, é a temática voltada às questões sociais, em épocas que fica cada vez mais evidentes, tanto nos EUA como no Brasil, o quanto o menos favorecido é hostilizado pela sociedade. Estamos muito acostumados a ver no cinema americano criminosos negros ou latinos causando o terror nas ruas e nos metrôs. Aqui, contudo, há uma realidade pouco vista nos filmes: homens brancos e ricos demonstrando sua fúria contra a minoria e mulheres indefesas. Outro momento de interessante reflexão se esconde por de trás da personalidade do pai do homem-morcego, o milionário Thomas Wayne (o Batman só aparece aqui como criança), cuja conduta faz lembrar muito o oportunismo de políticos corruptos (sobretudo, lembra muito um governador de estado aqui no Brasil). Essa nova possibilidade de leitura ma faz refletir: seria mesmo Batman um herói? Ok, ele não aparece com sua habitual roupa, mas ao analisarmos o legado que lhe é deixado por um homem não exatamente escrupuloso, nos faz pensar nisso... Enfim, de qualquer forma, que fique claro: Coringa é sim um vilão! Mesmo sendo humilhado constantemente, como uma versão masculina de "Carrie, a Estranha", a maldade assumida por ele não se justifica.

 Como de hábito, deixo pro fim informações obre o elenco. No papel título, Joaquin Phoenix demonstra de vez sua versatilidade. Sem dúvida, é o filme de sua carreira, numa interpretação digna de Oscar. O astro Robert DeNiro (aliás, habitual parceiro de Scorsese) interepreta aqui um apresentador comediante (no estilo Jô Soares), idolatrado exageradamente por Fleck. A veterana Frances Conroy faz a mãe  do Coringa, Brett Cullen vive o já mencionado Thomas Wayne e Zazie Beetz (de "Deadpool 2") faz um provável interesse romântico do protagonista.

 Coringa se concretiza como o filme de heróis para o público adulto, com poucos momentos de humor, e com diversas possbilidades reflexivas sobre questões sociais. É fácil de entender o porquê do filme ter desagradado  muitos políticos de partidos conservadores, pois afinal de contas, tais perfis não são exaltados nessa narrativa; ao contrário, demonstram repulsividade, e isso tem certa lógica. Este é dos filmes que merece uma nova análise, e certamente precisa ser conferido. Vale a pena!

TRAILER