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sábado, 19 de outubro de 2019

Coringa

 Nessa guerra simbólica entre Marvel x DC Comics, com filmes protagonizados por seus super-heróis populares, quem ganha é o público, que confere toda a diversidade de fitas. Se parecia, para alguns, que a Marvel estava levando a melhor, a DC (ou Warner) demonstrou que produzir um filme protagonizado por um anti-herói, feito com muita seriedade, consegue superar a batalha de egos de diversos heróis envolvidos numa só projeção, como é o caso da série Avengers.

 Quem diria, o diretor Todd Phillips (também roteirista, ao lado de Scott Silver), responsável por comédias escrachadas como a série "Se Beber, Não Case" e "Um Parto de Viagem", assumiu essa prdoução em que, por mais que Coringa seja conhecido por ser uma figura irônica e diabolicamente engraçada, quase não há espaço para a comédia; tudo aqui consegue ser mais sombrio e tenebroso que qualquer filme na nova franquia do Batman, comandada por Christopher Nolan.

 O nosso popular "herói" é vítima constante de bullying por ser desajeitado e ter um péssimo aspecto físico. Além disso, sofre de uma doença em que, quando está nervoso, começa a gargalhar freneticamente. Enfim, trata-se de um perdedor, desprezado por todos. A situação piora quando ele é demetido de seu trabalho, no qual ele se disfarçava de palhaço para animar as pessoas em eventos. As coisas fogem da normalidade de vez quando descobre um segredo envolvendo a identidade de seu possível pai. A partir daí, consumado pela ira, Arthur Fleck torna-se Coringa, e está disposto a fazer valer sua justiça.

 Não me recordo da classificação etária do filme, e já informo que ele é bastante pesado para crianças e pré-adolescentes. A trilha sonora densa e tocante sugere que o público está assistindo a uma produção de horror, gênero que se aproxima bastante da narrativa. Mais uma vez, palmas para Todd Phillips, que mostrou versatilidade atrás das câmeras, ao abandonar o seu lugar comum na comédia. O que também é facilmente perceptível é a homenagem aos filmes do cineasta Martin Scorsese, sobretudo fitas como "Taxi Driver" e "O Rei da Comédia", que surgem na mente do espectador mais familiarizado com o cinema, quando observa diversas cenas. Falando em Scorsese, que tem o hábito de registrar suas tramas em Nova York, a Gotham City daqui é uma fotografia idêntica de Nova York, sobretudo nas cenas dos guetos noturrnos.

 Mas o que mais me chamou a atenção, é a temática voltada às questões sociais, em épocas que fica cada vez mais evidentes, tanto nos EUA como no Brasil, o quanto o menos favorecido é hostilizado pela sociedade. Estamos muito acostumados a ver no cinema americano criminosos negros ou latinos causando o terror nas ruas e nos metrôs. Aqui, contudo, há uma realidade pouco vista nos filmes: homens brancos e ricos demonstrando sua fúria contra a minoria e mulheres indefesas. Outro momento de interessante reflexão se esconde por de trás da personalidade do pai do homem-morcego, o milionário Thomas Wayne (o Batman só aparece aqui como criança), cuja conduta faz lembrar muito o oportunismo de políticos corruptos (sobretudo, lembra muito um governador de estado aqui no Brasil). Essa nova possibilidade de leitura ma faz refletir: seria mesmo Batman um herói? Ok, ele não aparece com sua habitual roupa, mas ao analisarmos o legado que lhe é deixado por um homem não exatamente escrupuloso, nos faz pensar nisso... Enfim, de qualquer forma, que fique claro: Coringa é sim um vilão! Mesmo sendo humilhado constantemente, como uma versão masculina de "Carrie, a Estranha", a maldade assumida por ele não se justifica.

 Como de hábito, deixo pro fim informações obre o elenco. No papel título, Joaquin Phoenix demonstra de vez sua versatilidade. Sem dúvida, é o filme de sua carreira, numa interpretação digna de Oscar. O astro Robert DeNiro (aliás, habitual parceiro de Scorsese) interepreta aqui um apresentador comediante (no estilo Jô Soares), idolatrado exageradamente por Fleck. A veterana Frances Conroy faz a mãe  do Coringa, Brett Cullen vive o já mencionado Thomas Wayne e Zazie Beetz (de "Deadpool 2") faz um provável interesse romântico do protagonista.

 Coringa se concretiza como o filme de heróis para o público adulto, com poucos momentos de humor, e com diversas possbilidades reflexivas sobre questões sociais. É fácil de entender o porquê do filme ter desagradado  muitos políticos de partidos conservadores, pois afinal de contas, tais perfis não são exaltados nessa narrativa; ao contrário, demonstram repulsividade, e isso tem certa lógica. Este é dos filmes que merece uma nova análise, e certamente precisa ser conferido. Vale a pena!

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sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Extraordinário

 Que tal fechar o ano de 2017 com chave de ouro, assistindo a uma produção leve, singela, delicada, bonita...? A dica é esse Extraordinário, que realmente conquistou a simpatia do público brasileiro. A fita, dirigida e escrita por Stephen Chbosky (o mesmo do interessante "As Vantagens de ser Invisível"), ao lado de Steve Conrad e Jack Thorne (no roteiro), adaptada de livro de R.J. Palacio, é a pedida ideal para fim de ano.

 Quem diria, o país onde, conforme a produção cinematográfica dos anos 70 em diante mostra, evoluiu o termo hoje conhecido como "bullying", faz uma campanha explícita para combatê-lo, o que não deixa de ser uma novidade; afinal, o que se via até então (até em documentários), era no máximo críticas a esse tipo de violência cometida nas escolas ou em qualquer espaço, mas nenuma medida eficaz contra tais abusos. Aqui, felizmente, se vê uma autoridade escolar proibindo essa prática. Mais um fato favorável para o filme!

 Quanto a história, o garoto Auggie nasceu com uma certa deformidade em sua face, e por essa razão, se esconde através de um capacete, e não frequentou a escola; teve aulas em domicílio com a própria mãe. Entretanto, para integrá-lo na sociedade, a mãe resolve matriculá-lo em uma escola, no instante em que iniciará a 5ª série. Esse novo mundo de Auggie, em que conhecerá de frente as maldades humanas através de comentários ofensivos e intolerantes de todos a sua volta, por conta de seu aspecto visual, precisará ser enfrentado por ele com muita determinação. Um ponto favorável é o apoio que ele recebe da família, e as amizades que consegue conquistar aos poucos.

 Claro que há momentos piegas, e alguns clichês que refletem o comportamento da sociedade americana. Todavia, o filme emociona ao deixar no ar a ideia de que os momentos da vida são passageiros, e por isso deve-se aproveitá-los a todo instante, já que o tempo não perdoa. Quando se sai da sala de cinema é bastante comum observar pessoas chorando e soluçando, não por se tratar de uma história triste (spoilers a parte, não há nenhuma tragédia); ao contrário, há até mesmo muito humor através dos diálogos entre os pais de Auggie, e nas imaginações férteis do garoto, fanático por "Star Wars", quando constrói imagens em que visualisa os próprios personagens de sua franquia predileta. Na verdade, a plateia fica comovida por conta da ideia já mencionada que a narrativa passa, da brevidade da vida, de valores desperdiçados pelos seres humanos, da saudade quando se perde um ente querido...

 Sempre deixo pro final as menções sobre o elenco. Bom, Julia Roberts e Owen Wilson são sempre figuras carismáticas, e responsáveis pelos instantes de humor, como os pais de Auggie. Mas, no fim das contas, ambos tem pouco a fazer, numa história protagonizadas pelas crianças. Aliás, não é apenas o ponto de vista de Auggie que é o foco; a narrativa dá espaço também para a irmã mais velha Via, a melhor amiga dela Miranda, e um novo amigo que Auggie faz, Jack Will. Todos os intérpretes são fantásticos. Dizer algo sobre Jacob Trembley, o Auggie, é desnecessário. Afinal, o astro de "O Quarto de Jack"é cativante como se pôde observar no filme citado, e aqui extrapola ainda mais, atingindo o coração da plateia. Os amigos dos irmãos, Noah Jupe e Danielle Rose Russell, também demonstram muita ternura. Mas é mesmo a garota Izabela Vidovic (a filha de Jason Statham em "Linha de Frente") como a irmã de Auggie, que mais me comoveu, sobretudo no momento em que se lembra de sua bondosa avó, aliás, uma participação bacana de nossa Sônia Braga. Por fim, o veterano Mandy Patinkin interpreta o diretor de escola mais humano e simpático que não se vê costumeiramente nas telas.

 Extraordinário, portanto, é uma bela produção cinematográfica que traz simples questões sobre a vida que fazem o espectador refletir durante a projeção. Torno a dizer: é piegas, e muitas vezes previsível, mas se consegue arrancar algum sentimento exposto do público, então tem seu valor. Admito, eu chorei. E fica uma entre tantas mensagens: "Quando tiver que escolher entre estar certo e ser gentil, escolha ser gentil". Feliz 2018!

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terça-feira, 2 de maio de 2017

A Cabana

 Há alguns anos um livro com o título desse filme fez muito sucesso, inclusive no Brasil. A possibilidade dele ser transformado em película era bem alta, e isso acabou acontecendo. O autor do livro, um certo William P. Young, é uma espécie de Nicholas Sparks mais voltado ao tema do cristianismo.

 Mack Phillips é um homem que vive triste e amargurado com o desaparecimento de sua filha caçula em um acampamento. Mesmo sendo cristão, assim como sua família, parece não ter mais fé em Deus, e nem deseja continuar vivendo. No entanto, as coisas mudam quando ele recebe uma carta de alguém que diz aguardá-lo na cabana velha em que os pertences de sua filha foram encontrados. Pensando que possa ser o sequestrador, Mack vai até lá, e acaba se surpreendendo com o que encontra: duas mulheres e um homem que afirmam ser Deus em suas três formas: Pai, Filho e Espírito Santo. A experiência que Mack viverá nesse local será inesquecível.

 Preparem os lenços! Essa é uma história daquelas de fazer o espectador ficar em prantos. Mas não esperem sentimentalismo barato, o foco está nas emoções vivenciadas pelo protagonista através de todo seu aprendizado. Méritos dos roteiristas John Fusco, Andrew Lanham e Destin Daniel Cretton que fizeram um competene trabalho de adaptação, e também do diretor inglês pouco conhecido, Stuart Hazeldine (que fez apenas uma fita de terror que ninguém conhece, "Exame", de 2009), que demonstra bastante habilidade atrás das câmeras. A direção de arte e a belíssima fotografia, repleta de diversas cores, e o cenário bucólico são outros grandes atrativos.

 Além disso, um elenco bem entrosado ajuda a dar suporte para a história. O galã Sam Worthington (de "Avatar") tem sensível interpretação, e acerta na dose dramática. Fora ele, há a sempre excelente Octavia Spencer, no papel de ninguém mais, ninguém menos que Deus (responsável também por alguns momentos de humor, demonstrando que o "Papai", como ela é chamada, não é um velhinho ranzinza de barba branca), Radha Mitchell como a esposa, o veterano Graham Greene em outra face de Deus, Tim McGraw como o melhor amigo (que na verdade é o narrador da história) e uma participação importante da nossa brasileira Alice Braga, numa cena interessante como a Sabedoria. Merecem destaques também dois nomes pouco conhecidos: a japonesa Sumire Matsubara, como Espírito Santo, e o israelense Avraham Aviv Alush, como o Filho. Aliás, o fato de se ter uma negra, uma japonesa, um israelense e um americano de origem indígena interpretando Deus apenas posiciona o filme favoravelmente a  um mundo mais tolerante e respeitoso à diversidade de etnias, algo bastante oportuno, e que certamente não deve ter agradado ao presidente americano do momento; além disso, diga-se de passagem, já existem muitos Cristos brancos e de olhos azuis em diversas produções por aí...

 Enfim, há uma polêmica existente entre a comunidade evangélica, que dividiu opiniões, já que alguns consideram a temática mais voltada ao espiritismo e não ao cristianismo. Eu, honestamente, não consegui enxergar isso. Em todo caso, é uma história muito bem contada, que fala sobre amor, perdão, superação de obstáculos, esperança, paz... Ou seja, não há como ficar indiferente quando a mensagem é totalmente positiva. E, afinal, não é disso que o mundo precisa? Vale a pena desfrutar de momentos que emocionam e fazem refletir; Abraços!

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domingo, 26 de junho de 2016

Como Eu Era Antes de Você

 Como marketing, foi bastante oportuno o lançamento desse título no Brasil agora em junho, em comemoração ao dia dos namorados. Trata-se de uma adaptação de livro que segue a linha de autores como Nicholas Sparks e John Green. A diferença é que aqui a autora, Jojo Moyes, é a roteirista do filme, o que garante maior fidelidade ao livro.

 A atrapalhada Lou Clark passa por um estranho processo seletivo, e é escolhida para trabalhar em uma linda mansão, como auxiliar do milionário Will Traynor, que tornou-se paraplégico, após ser atropelado por uma moto. Aos poucos, ela precisa engolir o mau humor e a arrogância do rapaz, mas com o passar do tempo vai nascendo uma forte amizade entre ambos, que se transforma em amor. O problema é que ele está decidido a aplicar o uso da eutanásia, pois não quer mais viver. Isso deixa a moça preocupada, assim como os pais dele. Assim, ela tenta dar o melhor de si para mostrar o quanto a vida vale a pena.

 A diretora Thea Sharrock realizou uma estreia talentosa e promissora atrás das câmeras, num romance sensível, com bastante humor, e momentos dramáticos. Nem precisa dizer que a fita está repleta de clichês; porém, por outro lado, trata-se daqueles filmes que satisfaz e agrada bastante a plateia, até mesmo o público masculino, pois nunca cansa, sempre diverte e segura a atenção do espectador para o desfecho. Além disso, diversas canções pop e paisagens deslumbrantes do interior da Inglaterra, com belíssimos castelos, fascinam quaisquer olhos indiferentes.

 A escolha do elenco também foi sábia, com Emilia Clarke no papel central, fazendo comédia, numa composição bem diferente de sua personagem na popular série de rv, "Game of Thrones"; talvez esteja nascendo uma estrela no cinema também. O rapaz é interpretado por Sam Claflin, que esteve nos últimos filmes da série "Jogos Vorazes" e em "Branca de Neve e o Caçador", e sua sequência. Eles tem boa química em cena, e são auxiliados pelos bons veteranos Janet McTeer e Charles Dance, como os pais dele, além do novato Stephen Peacocke, que rouba a cena como o acompanhante que leva Will para fisioterapia e lugares do tipo.

 Nem chega a ser spoiler o fato de que o final previsível vai fazer a plateia derrubar imensas lágrimas. Mas não se pode deixar de admitir que esse simpático passatempo acaba servindo também como lição de vida e te faz refletir ao menos um pouquinho sobre o valor que se dá a ela. Enfim, uma ótima alternativa para quem quer fugir dos variáveis filmes de heróis que invadiram a telona. Eu recomendo!

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domingo, 16 de fevereiro de 2014

A Menina Que Roubava Livros

 Gosto bastante de filmes que retratam a época da Segunda Guerra Mundial e o período nazista. Por isso, tive vontade em assistir ao filme do título; e a empolgação aumentou, pois eu já havia lido o livro de Markus Zusak, pelo qual foi adaptado para a tela.

 A garotinha Liesel Meminger é entregue pela própria mãe a um simples casal, pois está com alguns problemas relacionados à política do momento (certamente é comunista). A partir de então, a menina tem um novo cotidiano, ao lado do pai adotivo que adora, da mal humorada mãe adotiva que vive lhe dando broncas (mas no fundo é bondosa), do amiguinho Rudy Steiner, com quem vive apostando corridas, etc. No entanto, o que surpreende a garota é a chegada do judeu Max Vandenburg, acolhido no porão dos Hubermann, os novos pais de Liesel, que são solidários a ele. A garota começa uma grande amizade com ele, enquanto conserva como melhor passatempo o ato de roubar livros.

 Não vou cair no habitual clichê de dizer que "o livro é bem melhor". Porém, quando se lê a este best seller, no momento já da pra imaginar uma adaptação cinematográfica, e talvez por isso, nem tudo tenha saído perfeito, o que não quer dizer que o filme seja ruim. Um dos momentos que causou muita ansiedade em minha leitura é o desfile de judeus pelas ruas da pequena vila da história, comandados por oficiais nazistas, e que escandalizavam o leitor pela riqueza de descrições. No filme, contudo, isso aparece pouco e de uma forma que não emociona tanto, principalmente depois de se ver a outros momentos muito mais impactantes.

 O grande problema, talvez, esteja na emoção. Afinal, A Menina Que Roubava Livros é o tipo de narrativa que facilmente leva o leitor às lágrimas. Porém, na tela, a impressão que fica é a de que o roteirista Michael Petroni, sob a batuta do pouco conhecido diretor Brian Percival, tentou reunir o máximo possível das situações contidas no livro, sem exatamente destacar algum momento mais dramático. A própria personagem que narra, a morte, às vezes desaparece da história, e quando volta a contar os relatos em off, o espectador se questiona: "Quem está narrando mesmo?". Apesar disso, na sessão em que estive presente, constatei alguns soluços e choros intermináveis (certamente, de alguma leitora da obra, que se apegou aos detalhes da literatura, mas que foram adaptados superficialmente). Outro fato curioso é que a menina Liesel, no filme, rouba menos livros do que na obra literária. Um bom momento que poderia ter sido melhor explordo é o encontro dela com a esposa do prefeito.

 Mas não se pode dizer que a película não prende a atenção. Afinal, o entretenimento é garantido, e o público se deixa envolver facilmente com a história (mesmo o desfecho querendo ser ligeiro demais para os personagens, após a longa duração). Tecnicamente, o filme é excepcional, com bela fotografia, direção de arte e a famosa trilha sonora do popular John Williams, que conseguiu mais uma indicação ao Oscar (a única do filme). Quanto ao elenco, os veteranos Geoffrey Rush e Emily Watson interpretam os pais adotivos de Liesel (quando li o livro, nunca imaginei Emily como a "ranzinza" Rosa Hubermann, imaginava uma atriz mais corpulenta, como Kathy Bates, por exemplo. Mas ela atua muito bem no papel!). Fora eles, nenhum nome mais famoso, a não ser o do britânico Roger Allam (de "A Rainha" e "Piratas do Caribe 4"), personificando a voz da morte. O garoto loirinho Nico Liersch impressiona pelo seu visual, e a menina Sophie Nélisse foi a escolha ideal para a personagem-título.

 Enfim, vale a pena conferir e deixar-se interessar pela história, principalmente se for deixar de lado detalhes que seriam fundamentais para o filme, não só para os leitores da obra, como também para o público em geral (como o contexto histórico que mal é informado). Em todo caso, o filme mais agrada do que irrita. Abraços!

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segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

O Impossível

 O último filme que eu vi nas telas no ano de 2012 não podia ser mais trágico ou comovente. E ainda por cima, baseado em fatos reais! Mas é um filme que te prende a atenção do começo ao fim por conta do tema  tratado. E ainda bem que foi bom tê-lo assistido, pois levei uma caravana pra ver comigo (minhas sobrinhas Bianca e Larissa, e Diogo, o namorado da última, além da minha fiel companheira Gisele). Ou seja, provavelmente apanharia muito se fosse um filme ruim.

 Quem não se lembra do tsunami que destruiu boa parte da Ásia entre os fins de 2004 e começo de 2005? Eu me lembro muito bem desse fato, e portanto, tive um interesse muito grande em assistir essa produção dirigida pelo espanhol Juan Antonio Bayona ( do terror "O Orfanato" ) e roteirizada por Sergio G. Sanchez, a partir do livro de Maria Belon, a personagem real da história. E, após ver O Impossível, eu passei a refletir sobre algo que eu já havia pensado, em épocas de 11 de setembro. O que seria do cinema se não existissem as grandes tragédias contemporâneas? É duro admitir, mas elas acabam se tornando um mal, se não necessário, pelo menos oportuno.

 Bom, os atores Naomi Watts e Ewan McGregor interpretam o casal britânico (na vida real, são espanhóis) que está de férias com os filhos em um luxuoso resort na Tailândia. E, em um dia de sol maravilhoso, a partir do nada, as gigantescas ondas se alastram por todos os cantos, destroem o resort e espalham pânico, terror e morte por todos os lados. Enquanto Naomi encontra o filho mais velho, Ewan e as outras duas crianças  estão em um outro ponto do lugar lutando para achá-los com vida.

 O filme foi duramente criticado por alguns jornalistas, que caracterizaram-no como piegas e sentimental ao extremo. Oras, creio ser muito difícil ( para não fazer menção ao título "impossível" ) não exagerar na emoção, quando se trata de uma tragédia como essa, envolvendo uma família e, ainda por cima, baseada em acontecimentos verídicos. De fato, em diversos instantes, o telespectador é incentivado a cair nos prantos, em decorrência de tanto sofrimento em cena. E eu creio que esse seja o motivo do sucesso de público que essa fita está fazendo aqui no Brasil. Afinal, esse tipo de história contada na tela grande é bastante apreciada por nós. Concluo que os clichês e o rótulo piegas não chegam a incomodar.

 Quanto ao elenco, Naomi Watts está sendo indicada para diversos festivais. E, certamente, será indicada ao Oscar, o que é merecido. Afinal, o sofrimento de sua personagem, tanto emocional quanto físico (aliás, acho que mais físico!) é muito convincente; e os méritos são dessa excelente atriz. No entanto, acho injusta toda essa badalação em cima dela, pois Ewan McGregor está excepcional tanto quanto Naomi. A cena em que ele se desespera no telefone, ao conversar com o sogro, é uma das mais humanas que já vi na tela. E, no fim das contas, o grande astro do filme é o garotinho Tom Holland, que interpreta o filho mais velho. Sua interpretação oscila maturidade com ternura! Eu não acharia estranho se o menino também tivesse uma indicação a estatueta de ouro, embora seja pouco provável. Aina no elenco, a veterana Geraldine Chaplin faz uma idosa, também vítima do tsunami, em um diálogo com uma das crianças.

 Trata-se também de uma produção impecável, com boa fotografia e excelente direção de arte. Os efeitos também impressionam ( mas não tanto quanto o tsunami promovido por Clint Eastwood em "Além da Vida" ). Não sei se eu estarei estragando a surpresa, mas o final não é triste. Digo isso por dois motivos: em épocas de fim de ano ninguém quer saber de finais não felizes, ainda mais quando se tem uma temática como essa!; e também porque o filme baseia-se em obra escrita pela personagem central. Ou seja, já da pra saber que pelo menos alguém importante na trama não morrerá. Mas, creio que seja melhor não dizer mais nada. Só adianto que tem muito suspense e algumas reviravoltas em cena. Enfim, piegas ou não, indico com muita lucidez essa produção, ao mesmo tempo dramática e eletrizante! Feliz 2013 para todos nós!!!!

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sábado, 5 de novembro de 2011

Contágio

Aguardei a estreia desse filme com muita expectativa, pois o cartaz chamou a atenção pelo próprio título, e também pelos nomes que compõem o elenco estelar e a direção, Steven Soderbergh. Em seguida, li algumas críticas, todas elas negativas, e por isso, já não estava esperando tanta coisa. No entanto, até que gostei do filme sim.

Em 1995, o filme Epidemia, de Wolfgang Petersen, lotou as salas de cinema e foi um enorme sucesso. Cito esse filme, pois o contexto é bem parecido; a diferença é que aquele era pura ação, literalmente, com direito a momentos de correria e explosões, enquanto a produção de Soderbergh focaliza mais para a tensão e o drama que o contágio proporciona.

Tudo começa quando a americana Beth Emhoff ( Gwynrth Paltrow ) retorna ao seu país, após uma viagem de negócios na China, infectada com um vírus mais fatal que a gripe suína. A partir de então, esse vírus vai evoluindo e sendo transmitido para diversas pessoas, que morrem em pouco tempo. Estranhamente, o marido de Beth, Mitch Emhoff ( Matt Damon ) é imune e não se contagia. Enquanto isso, diversos médicos liderados por Dr. Ellis Cheever ( Laurence Fishburne ) e Dra. Leonora Orantes ( Marion Cotillard ) tentam diversas formas de combater a epidemia que se alastra por todo o mundo.

O roteiro de Scott Z. Burns, ao propor esse problema, sugere uma reflexão acerca de algo bastante comum na nossa realidade. A elevação do vírus é mostrada didaticamente pelas diversas palestras e explicações proporcionadas pelos doutores em cena. Aliás, essa é uma das críticas que fizeram contra o filme, que foi caracterizado por alguns críticos como um episódio "dialogado" de algum documentário do Discovery Channel. Em todo caso, fico aliviado com o fato de que a fita não estreou no auge da gripe suína, já que Soderbergh traz uma mensagem bastante assustadora e chocante sobre o tema. Afinal, quando boa parte da população já foi dizimada, o caos e a violência tomam conta das cidades, e o desespero e a luta pela sobrevivência invadem o interior de todos. Num estado como esses, quando uma vacina é produzida, àqueles que tem o poder conseguem se salvar, junto com os seus entes queridos. Mas, e o resto da população? Esse é um dos questionamentos que a película coloca no ar. E o Brasil já tem problemas demais; por isso, fico aliviado que o surto da gripe suína já tenha dado uma trégua.

Quanto ao elenco, ouvi alguma coisa sobre uma possível indicação ao OSCAR de coadjuvante para Gwynet Paltrow, o que eu acho uma asneira extremamente profunda. Afinal, Gwyneth tem pouco tempo na tela, e não tem nenhuma cena surpreendente. Gosto sim de Kate Winslet, como uma médica que também se contamina, e de Jude Law, como um jornalista blogueiro que, através do sensacionalismo virtual, manipula os cidadãos americanos e aumenta a angústia e a revolta de todos; um personagem ambíguo e bem construído pelo ator. Jude sim, e também Kate merecem atenção do OSCAR. Quem também leva a melhor é a pouco conhecida Jennifer Ehle ( de "Força Policial" e "O Discurso do Rei" ) que interpreta a doutora responsável pela criação do antídoto contra o vírus. Enfim, com tanto destaque em cena, fico preocupado com esse mito em torno de Gwyneth, que mal abre a boca...

No fim das contas, não aguardem um filme explosivo como "Epidemia" ou algum tipo de suspense aterrorizante, pois não é disso que se trata Contágio. Mas também não se trata de um filme lento ou cansativo, nem mesmo sou da opinião de que se trata de um episódio do Discovery. Ele apenas adverte detalhadamente, mesmo sendo polêmico, sobre algo permanente no mundo, e que vem e volta a qualquer momento. E eu gosto quando temas polêmicos são discutido na tela. O problema é que Soderbergh se perde com tanta trama paralela. O final da personagem de Marion Cotillard, por exemplo, fica em aberto e não tem conclusão. Mas, mesmo assim, a produção mantém o interesse. Ah! Apesar de assustar os espectadores, o final é positivo e esperançoso, ok? Para quem não se impressiona fácil com as coisas, e quem gosta do tema, Contágio pode ser um passatempo oportuno, mesmo sem ser uma obra prima. Abraços!

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quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O Palhaço

Toda vez que vou ao litoral de São Paulo, sempre arranjo uma oportunidade para ir ao cinema. E foi o que Gisele e eu fizemos no shopping do centro de São Vicente, onde assistimos a essa segunda, e bem-sucedida, incursão de Selton Mello como diretor (ele também protagoniza, e é roteirista ao lado de Marcelo Vindicato).

O Palhaço é um drama, ora triste, ora bem humorado, sobre o cotidiano de artistas de circo, que viajam para diversos lugares do Brasil, normalmente zonas rurais e lugarejos bem distantes da civilização (o tom é nostálgico, pois também retrata a cidade natal do ator/diretor, Passos, MG). Mello vive a antítese do palhaço Benjamin, que tem a função de alegrar a plateia, ao mesmo tempo em que vive tristonho e melancólico. Ele procura um sentido na vida, a busca do algo que lhe falta para torná-lo feliz. Em seu cotidiano, fora os companheiros de trabalho, interage com diversas pessoas, que acrescentam algo no seu interior.

Enfim, um filme singelo, delicado, poético, amargo e alegre. Com sua duração curta, Mello consegue misturar todas essas doses de emoção e cativar o público. Consegue, inclusive, ser filosófico ao tentar entender qual o sentido da vida. Além disso, é também um filme bem brasileiro, ao registar nas personagens, comportamentos bem típicos de nossa cultura.

Fora o astro, o veterano Paulo José, no papel do palhaço pai, Valdemar, atua magistralmente, e é responsável por uma das falas mais emocionantes da película, ao falar do gosto de sua profissão. Há ainda, grandes participações, ainda que pequenas, de astros famosos, como Moacyr Franco, Jackson Antunes, Danton Mello, Emílio Orciolo Neto, Tonico Pereira, Fabiana Karla e outros não muito famosos, mas extremamente competentes, como os demais artistas de circo. A mais cativante, sem dúvida, é a garotinha Larissa Manoela, que na verdade tem o papel chave da história. No todo, um time pra lá de competente!

Incomodo-me apenas com a característica que Selton coloca no palhaço que ele próprio interpreta. Trata-se de um tipo meio "abobalhado" e esquisito, que fala devagar, e parece não entender muito o que outros falam. Creio que essa composição seja um tanto inócua e desnecessária. Em todo caso, fica claro que isso não compromete O Palhaço, que se conclui como uma pequena obra prima do cinema brasileiro contemporâneo, uma excelente alternativa para candidato de OSCAR de filme estrangeiro (coisa que não vai acontecer). Recomendo, portanto, essa bela preciosidade, que comprova o talento de Selton Mello, não apenas como ator, mas principalmente como um grande realizador! Até a próxima...

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sábado, 5 de março de 2011

O Discurso do Rei

Antes da cerimônia do OSCAR, eu conferi esse grande vencedor da Academia. Minha esposa Gisele -e fiel acompanhante- ficou com receio de não gostar do filme. Afinal, trata-se de uma produção britânica e de época; normalmente, filmes desse gênero são longos, cansativos e insuportavelmente chatos. Entretanto, Gisele se surpreendeu, afinal, isso não ocorre aqui. O Discurso do Rei é um drama de época interessante, e até mesmo divertido.

Tenho minhas dúvidas ainda se ele deveria ter ganho as principais estatuetas do OSCAR (filme, diretor -Tom Hooper, ator -Colin Firth e roteiro original de David Seidler). Mas, só por ter derrotado o tolo A Rede Social, seu principal concorrente, eu adorei. E repito, não se trata de um longa cansativo. Além de alcançar o interesse do público com a narrativa, O Discurso do Rei também é tecnicamente perfeito; direção de arte, fotografia e figurinos são arrasadores.

George VI (Colin Firth) está prestes a se tornar rei da Inglaterra, em período que antecede a 2ª Guerra Mundial. Isso ocorre, após a abdicação de seu irmão mais velho, Lord Wigram (Guy Pearce). O trono pode ser uma ameaça para George por um simples detalhe - ele é gago! Para superar esse problema, a esposa Elizabeth (Helena Bonham-Carter) contrata os serviços do famoso Lionel Logue (Geoffrey Rush) que se faz passar por fonoaudiólogo, quando na verdade tenta ser ator shakesperiano.

Nesse filme, Helena Bonham-Carter volta as origens, em típico papel que representou bastante no início de carreira. Ela está segura e contida na personagem, mas são mesmos os dois astros centrais que roubam a cena. Colin Firth teve, finalmente, o reconhecimento pela Academia. Ele está surpreendentemente bem como o rei gago, um papel bastante difícil, e que encontrou a boa correspondência em Firth. Agora, o ator também brilha graças a magnífica interpretação de Geoffrey Rush como o "especialista em diálogos". Ele comprova, definitivamente, o quanto versátil é, ao compor um personagem diferente e muito irreverente.

Enfim, O Discurso do Rei caiu no gosto do público por se tratar de um filme agradável, positivo, de bem com a vida mesmo. Em resumo, trata-se da superação de obstáculos. Por isso, torna-se fácil o espectador contextualizar a vida do rei com seu próprio cotidiano. Afinal, todos temos dificuldades. Por isso, ao sair da plateia, o público sai com um sorriso satisfeito e otimista, recepção rara para filmes britânicos. Misturando doses certas de seriedade e humor, O Discurso do Rei se consagra como a mais bela produção do ano. Não deixem de conferir!

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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Cisne Negro

Um filme diferente, ousado, perturbador e pesado! Com certeza, Cisne Negro não é para todos os públicos, mas se trata de um exercício de pesadelo delirante e arrebatador. Um roteiro ( de Mark Heyman e Andres Heinz) que provoca e surpreende o tempo todo; uma direção segura e competente; e uma formidável atriz no papel central contribuem para o sucesso do filme. Mas, vale um repeteco no recado, não é para todos os gostos, é um filme difícil e, muitas vezes, insuportável.

Quem já assistiu Réquiem Para Um Sonho, conhece um pouco da atmosfera pesada do cineasta Darren Aronofsky, que, agora sim, está se tornando um diretor de estilo, e conseguiu cinco indicaçõs ao OSCAR para seu filme - filme, direção, atriz (Natalie Portman), montagem e fotografia. Certamente, Aronofsky não é o favorito, mas já está acumulando popularidade, pois seu próximo longa é extremamente comercial, The Wolverine.

Quanto ao filme, Natalie Portman interpreta a jovem bailarina Nina Sayers, uma moça tímida e sexualmente reprimida. Ela adora o ballet, e está prestes a protagonizar o espetáculo Lago do Cisnes, como o Cisne Branco. Entretanto, seu diretor (o francês Vincent Cassel), pretende que uma única bailarina interprete tanto o Cisne Branco, quanto o Cisne Negro, tarefa difícil para Nina, pois ela não tem o toque de malícia ideal para o papel. Assim, uma outra bailarina, Lily (Mila Kunis, de "O Livro de Eli"), torna-se um grande obstáculo, já que ela tem o perfil completamente apropriado para interpretar o Cisne Negro. Assim, cega pelo desejo em obter o duplo papel, Nina modifica sua personalidade, e não medirá esforços para conseguir o que almeja.

Alucinação, loucura, sonho e delírio integram a atmosfera do filme. Há, inclusive, um toque de terror em alguns momentos nessa produção que parece mesclar o clássico A Malvada (com Bette Davis) com o grande sucesso de DePalma, Carrie - A Estranha. É, de fato, o grande momento da jovem veterana Natalie Portman, um papel forte e difícil, que é perfeitamente encarnado pela atriz. Ou seja, é praticamente impossível Portman não levar o OSCAR. Em todo caso, ela não é a única que brilha, pois as coadjuvantes também dão um show - a veterana Barbara Hershey interpreta, brilhantemente, a mãe obcecada pelo sucesso da filha, e a novata Mila Kunis surpreende como a sedutora e maldosa Lily ( uma cena bastante corajosa é àquela de lesbianismo ao lado de Portman ), ambas injustamente ignoradas pela Academia. Até Winona Ryder está bem, num papel não-típico de sua carreira, a bailarina depressiva e decadente Beth Macintyre, que perde seu lugar ao sol para Nina.

E é exatamente sobre a luta inescrupulosa pelo poder e sucesso que trata o filme, que poderia se perder facilmente como uma história repleta de clichês, se não fosse a experiência de Aronofsky, ao introduzir esse clima de tensão e pesadelo para essa história dark e crua. Quem assistiu Réquiem Para Um Sonho sabe do que eu estou falando. Se você percebeu todas as condições adversas, e se encara numa boa o estilo de Aronofsky, não pode perder Cisne Negro, talvez a produção mais ousada do ano. E vamos guardar o nome Mila Kunis, ela promete surpreender muito ainda. Até!

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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A Rede Social

Este, até o momento, está sendo considerado como o melhor filme para o OSCAR 2011, o que simplesmente comprova que 2010 foi um ano fraco para filmes. Claro que não é uma péssima produção, mas apenas um filme com um tema bastante atual, e que será facilmente rejeitado e esquecido pelo público daqui a alguns anos.

A expectativa toma conta do espectador, quando se depara com o nome de David Fincher como o diretor do filme. Seus filmes são impactantes, prendem atenção e até viram sinônimos de adoração para muitos fãs. Dessa vez, temos a impressão de que A Rede Social foi dirigida por outro cineasta, talvez algum pupilo de Oliver Stone ou Jonathan Demme. Resumindo, trata-se de um filme exaustivamente chato!

Admito que a ideia de se fazer um roteiro (aqui, feito por Aaron Sorkin, adaptado do livro de Ben Mezrich) sobre um dos maiores fenômenos da internet, o facebook (que aqui no Brasil, por enquanto, perde para o Orkut) é ousada e interessante. Afinal, trata-se de um aplicativo de consumo utilizado por "zilhões" de pessoas em todo o continente. Mas tudo é feito através de diálogos excessivamente longos e batalhas judiciais intermináveis (afinal, tudo que gera lucro é presa fácil da corrupção).

Bom, o nerd de Harvard Mark Zuckerberg (Jesse Eisemberg), após levar um fora da namorada Erica Albright ( Rooney Mara) resolve se vingar dela, criando o Facemash, um site em que os estudantes da universidade possam votar na estudante mais gostosa. Com a ajuda do melhor amigo (e talvez, único) Eduardo Saverin (Andrew Garfield), e através de parcerias com os irmãos Cameron e Tyler Winklevoss (ambos feitos por Armie Hammer), Zuckerberg, aos poucos, cria o enorme êxito chamado facebook. A partir daí, uma vida relegada a dinheiro, sexo, mentiras e traições reinam em sua vida.

O pior problema do filme é que, em determinados instantes, temos a sensação de que não se trata de um filme sobre os bastidores do facebook, mas sim a biografia de Mark Zuckerberg. E, honestamente, Zuckerberg não é o tipo de pessoa que valha algum ingresso. Afinal, apesar de ser um gênio da informática de Harvard, trata-se de um nerd frustrado, feioso e idiota, e que faz fortuna após uma grande desilusão amorosa. Ou seja, um tipo de pessoa facilmente detestável. Quem o interpreta é o novato Jesse Eisemberg (que fez A Vila e Zumbilândia). Há fortes rumores de uma indicação ao Oscar por esse papel, mas a atuação dele não é nenhum sinônimo de brilhantismo. O mesmo eu digo do ator que faz o melhor amigo, Andrew Garfield (Leões e Cordeiros), que é possível candidato como coadjuvante. Quem se supera é o cantor Justin Timberlake, no papel de Sean Parker, outro associado do facebook.

Qual o interesse do filme então? Bom, o paradoxo. Afinal, o facebook foi criado por um desajustado anti-social e sem amigos. Ou seja, se por um lado, todos a sua volta nem reparam na existência de Zuckerberg, por outro lado, estas mesmas pesoas (e milhares de outras) acessam a rede de amigos criada por ele. Enfim, o site acabou sendo uma forma fantástica de se vingar do mundo que o rejeita e o esnoba, bem melhor que o banho de sangue promovido por Sissy Spacek, em Carrie - A Estranha; e diga-se de passagem, uma vingança bastante lucrativa.

Fora isso, o filme foca também o excesso de consumo vicioso que a era da informática traz na nossa sociedade. Todos estão plugados diariamente em sites de relacionamentos, fazendo tudo aquilo que se poderia fazer pessoalmente. Essa crítica é interessante, e se fosse melhor desenvolvida, aumentaria o interesse do filme. Mas, o tom biográfico sobre a vida de alguém que nós mesmos ajudamos a se tornar milionário, é muito irritante. E, como eu disse, não é alguém que merece atenção especial (se o biografado, de fato, tem esse perfil na vida real, não sei; critico apenas o que eu vi na tela). Em todo caso, A Rede Social merece ser discutido por alguns méritos que eu mencionei, por isso eu indico. Mas, se puderem, levem um travesseiro também. Abraços!

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terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Amor Sem Escalas

É impressionante como Hollywood tem uma extrema originalidade em inventar profissões no cinema! Fora o fato de idolatrar assassinos profissionais (o que beira o absurdo), agora chegou as telas brasileiras esse filme (no original, "Up in the Air") dirigido por Jason Reitman (filho do cineasta veterano Ivan Reitman, também produtor desse filme). E foi o que eu e a Gisele assistimos ontem nesse chuvoso e cinzento mês de janeiro!

O protagonista é Ryan Bingham, feito pelo preferido das mulheres, George Clooney. É ele que tem a estranha profissão que eu mencionei no início. Clooney trabalha numa firma contratada para demitir funcionários de diversas ocupações. Ou seja, eles não têm coragem de mandar ninguém embora, e por isso, essa missão cabe a Clooney, que viaja para todas as cidades dos EUA. Em uma dessas viagens, ele conhece a executiva Alex Goran (Vera Farmiga, de Os Infiltrados), e acaba se envolvendo com ela. Com o tempo, Ryan passa a treinar a jovem Natalie Keener (Anna Kendrick, de Crepúsculo), que também se especializa nessa profissão.

Bom, e assim flui a história (roteirizada pelo próprio Jason e Sheldon Turner, adaptada do livro de Walter Kim). Clooney passa o filme todo viajando e dando palestras, um homem charmoso e solteirão, que não pensa em responsabilidades matrimoniais. O filme acaba mostrando as vantagens de ser solteiro, mas aponta também as amarguras da solidão. Num meio termo perdido entre comédia e drama, Reitman retrata muito bem o cotidiano de homens e mulheres na casa dos 30 e 40, e que tentam buscar a felicidade. Isso é percebido através das personagens de Clooney e da excelente Vera Farmiga, uma atriz talentosa, e que agora poderá ser melhor reconhecida. No entanto, quem rouba a cena é a jovem Anna Kendrick, no papel da estagiária de Ryan. Ela serve como contraste às vidas maduras de Clooney e Vera; representa a juventude idealista, cheia de planos para o futuro e repleta de receios e ansiedades. O trio central, certamente, será indicado ao Oscar, mas nenhum deles deve ganhar. O final apresenta uma surpresa interessante sobre a conduta de uma das personagens, e que pode desagradar alguns (o que ocorreu com a minha esposa).

O filme demora um pouco para engrenar, começa de uma forma muito lenta, mas depois envolve, agrada, diverte. Trata-se de uma comédia dramática realista, às vezes fria (algumas demissões acabam sensibilizando; principalmente, porque vivemos num país em que o desmprego impera!), às vezes simpática. Gostei do filme, embora admito que não é para todo o público. Quem pensa que se trata de comédia romântica, por conta de presença de Clooney, vai se decepcionar. Ainda assim, recomendo. Um forte abraço!!!

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quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

A Última Ceia

( EUA 2001 ). Direção: Marc Forster. Com Billy Bob Thornton, Halle Berry, Heath Ledger, Peter Boyle, Sean Combs, Mos Def, Will Rokos, Milo Addica. 111 min.


Sinopse: Agente penitenciário e racista, após a execução de um homem negro, se envolve com a viúva do executado, também negra, que acabou de vivenciar duas tragédias. Juntos, tentam encontrar um sentido na vida.

Comentários: Filme independente e de prestigiado sucesso pela crítica americana, rendeu o Oscar de melhor atriz para Halle Berry, além de ser indicado como roteiro original (dos atores Will Rokos e Milo Addica, que também atuam). Halle realmente está convincente e humana, demonstra muita garra e coragem no papel que lhe rendeu o prêmio da Academia. Ela está muito bem acompanhada pelos demais atores do elenco, que também estão competentes no filme, com destaque para a fria interpretação de Billy Bob Thornton no papel do agente penitenciário e do veterano Peter Boyle como o pai do agente, intolerante, ignorante e racista. O ator, inclusive, até merecia uma indicação ao Oscar como coadjuvante. Heath Ledger tem participação pequena e seu personagem permanece em cena até antes do meio. Em relação ao filme, A Última Ceia é denso, frio, cru e mostra o relacionamento duro entre as personagens, enfocando a ausência do amor. O sentimento só explode, quando os personagens de Thornton e Berry passam pelo processo de duas perdas importantes em suas vidas. Hank Grotoski, personagem de Thornton, parece estar sempre ausente de emoções, com sua expressão facial sempre neutra e séria. Já a Letícia de Halle Berry, ao contrário, demonstra o seu estado de angústia, dor e sofrimento a todo instante. Quando os dois finalmente se envolvem, em uma cena de sexo extremamente forte, intensa e desesperada (às vezes, desagradável), suas personalidades se contrastam, e começam a descobrir coisas importantes para eles: ela encontra o alívio no lugar da perda, ao passo que ele enxerga que possui a capacidade de sentir algo. Além disso, com essa relação, ele passa a modificar certos conceitos, como a intolerância racial que, certamente, foi inspirada no pai. Enfim, bem escrito, dirigido (pelo alemão Marc Forster) e interpretado, A Última Ceia é um dos filmes mais humanos de 2001 e merece ter seu talento reconhecido.

Por que comprei o filme: Foi uma grata surpresa encontrar esse filme no Sebo do Messias da Praça da Sé, à preço de banana. É claro que na era do DVD, os vídeos perderam seus destaques e os preços caíram; todavia, há vídeos que ainda têm seus valores elevados, e seria o caso desse. Mas, graças ao despercebimento de muitos vendedores, comprei esse grande filme pelo valor de R$2,00. E, além do mais, Halle Berry está ótima. É uma pena que algumas atrizes, após ganhar um Oscar, fazem péssimas escolhas de atuações. E foi o que aconteceu com essa atriz, que só tem feito filmes comerciais de ação ,e parece não ter lido bons roteiros. Vamos torcer para o seu triunfal retorno!

domingo, 11 de outubro de 2009

Salve Geral

Em 2006, quando ocorreram os ataques promovidos pelo PCC (Primeiro Comando da Capital), imaginei que esse fato poderia um dia virar uma produção cinematográfica. Não demorou muito, e o experiente cineasta Sérgio Rezende ("Lamarca", "Zuzu Angel") acabou assumindo a direção desse filme, roteirizado por ele mesmo e também por Patrícia Andrade.

Outro fato curioso é que esse foi o filme brasileiro escolhido para disputar uma vaga ao Oscar 2010, na categoria filme estrangeiro. Entretanto, após assistí-lo, comecei a questionar: por que justamente Salve Geral? Será que este ano foi muito fraco para o cinema nacional?

Vejam bem, o filme não é ruim, e apresenta temática que levanta o interesse de qualquer espectador (não podemos nos esquecer que o povo ainda é preconceituoso com fitas nacionais). A professora de piano, e também formada em direito, Lúcia (Andréa Beltrão) se encontra numa tremenda enrascada, quando seu filho (o estreante Lee Thalor) acaba matando, sem intenção, uma garota num racha. O rapaz vai preso, e sua mãe tenta de tudo para tirá-lo do inferno carcerário. Ela acaba conhecendo, por acaso, a advogada Ruiva (Denise Weinberg), que resolve ajudar Lúcia. Porém, o que professora de piano começa a descobrir aos poucos, é que Ruiva é filiada a um partido de presidiários, que intencionam provocar um grande alvoroço em São Paulo, caso seus desejos não sejam atendidos. Assim, Lúcia acaba se "infiltrando" no partido, levando recados de Ruiva para os presos, com o intuito de conseguir tirar o filho da cadeia. Até que finalmente explode a revolução do partido, em pleno dia das mães.

Mais uma vez, afirmo que a ideia do roteiro é interessante. O problema é que ele acaba se tornado bastante confuso, já que Rezende desenvolve diversas tramas paralelas entre os prisioneiros. Fora isso, as atitudes da protagonista acabam se tornando um tanto bizarras. Por exemplo, fica difícil de entender o que faz com que ela se envolva amorosamente com um dos líderes dos presos (na verdade, um dos possíveis "Marcolas" do filme, já que há pelo menos outros dois que possuem tal perfil). Enfim, mesmo inocentemente, ela acaba se tornando cumplíce da "máfia" dos criminosos, e por isso, fica muito complicado torcer por ela.

Andrea Beltrão foi bastante elogiada no papel da protagonista, mas não gosto muito da atriz em papéis dramáticos. Acho-a muito fria e neutra demais. Na verdade, ela não tem uma grande cena. Por outro lado, quem se destaca é a pouco conhecida Denise Weinberg (da minissérie "Maysa"), no papel da advogada Ruiva. Ela acaba sendo a alma do filme, e rouba as cenas. Os demais atores também atuam bem (Kiko Mascarenhas, Taiguara Nazareth, Eucir de Souza, Chris Couto...).

Em Salve Geral, Rezende fez uma crítica à corrupção policial, ao mostrar algumas parcerias entre bandido e polícia na promoção dos atentados, o que acabou sendo uma atitude corajosa. Aliás, em nenhum momento é citado o nome da facção, "PCC", que sempre é referenciada como o "partido". Mas, honestamente, acho praticamente impossível Salve Geral ser indicado ao Oscar. Os excessos de cenas de ação e os conflitos entre os personagens não irão satisfazer os americanos. Além disso, o tema inspirado em fatos reais, se teve alguma repersussão nos EUA, já caiu no esquecimento, sem dúvida. A conclusão apresenta um não merecido final feliz, e prejudica ainda mais o resultado. Enfim, vale a pena para discutir um momento aterrorizante que São Paulo sofreu recentemente, e pela presença marcante de Denise Weinberg. Mas Rezende já fez melhor. Boa noite!

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domingo, 23 de agosto de 2009

Retorno a Howard`s End

( Inglaterra 1992 ). Direção: James Ivory. Com Anthony Hopkins, Emma Thompson, Helena Bonham-Carter, Vanessa Redgrave, James Wilby, Samuel West, Prunella Scales, Jemma Redgrave, Simon Callow. 142 min.


Sinopse: No início do século XX, a jovem inglesa Margaret, uma moça extrovertida que gosta de debater vários assuntos, torna-se amiga de Sra. Wilcox, matriarca de uma conservadora família inglesa. Ao morrer, a Sra. Wilcox escreve em um pedaço de papel seu último desejo: que sua antiga casa Howards End seja entregue a Margaret. Entretanto, a família da falecida insiste em resistir ao último pedido dela.

Comentários: Retorno a Howards End é mais uma gostosa adaptação inglesa do romance de E.M. Foster, assumida pelo trio diretor/produtor/roteirista de Uma Janela Para o Amor, outra adaptação de Foster: James Ivory/Ismail Merchant/Ruth Prawer Jhabvala. Essa deslumbrante produção, tão boa e requintado quanto ao filme anterior, teve nove indicações ao Oscar. Ganhou três: atriz (Emma Thompson), roteiro adaptado e direção de arte. Foi indicada ainda para filme, diretor, atriz coadjuvante (Vanessa Redgrave), fotografia, figurinos e trilha sonora. A jovem Helena Bonham-Carter volta a atuar com o trio após "Janela", só que em um papel diferente. Deixou de ser a ingênua romântica, e se tornou uma idealista meio "socialista", bastante inquieta e falante. Faz um bom par com a oscarizada Emma Thompson, que interpreta a irmã mais velha. Emma, aliás, conquistou Hollywood com esse filme, e passou a acumular outras indicações ao Oscar nos três anos posteriores. Ainda no elenco, Anthony Hopkins (bem diferente do Hannibal Lecter do ano anterior) interpreta o marido da matriarca Vanessa Redgrave (ótima como o habitual), e alterna momentos de elegância e hipocrisia. O roteiro de Jhabvala faz uma crítica ao comportamento da nobreza inglesa, ao mostrar personagens falsos, gananciosos e egoístas, que cometem atos puramente mesquinhos, e ainda assim, tentam preservar suas imagens de finos e educados perante a sociedade. Por isso, os filhos de Redgrave, e o marido Anthony Hopkins escondem da simples Emma Thompson, a todo instante, o desejo que a nobre senhora tinha em entregar à moça a casa Howards End. A trama é bem novelesca, com excesso de personagens, e reserva alguns momentos de humor (como a mania que a personagem de Helena tem em roubar guarda-chuva em dias chuvosos). Contudo, há alguns instantes trágicos, que acabam demonstrando que membros de uma refinada família inglesa são capazes até de matar para defender suas imagens sociais. Apesar do lado crítico, Retorno a Howards End é uma produção leve, gostosa, interessante e agrada principalmente o público feminino. Os deslumbrantes figurinos e a esplêndida direção de arte apenas contribuem para o resultado final.

Por que comprei o filme: Saiu na coleção da "Videoteca Caras". Quando adqüiri a fita, eu ainda não havia assistido ao filme, e imaginava-o como uma grande película sim, mas esperava que fosse um filme exaustivo e interminável. Tudo bem, a duração é longa, mas me surpreendi, pois o roteiro é ótimo e amarra muito bem as diversas situações novelescas. Nem vi o filme passar, pois mantive o interesse o tempo todo. E, por fim, o elenco extraordinário encara os personagens com muita vontade e determinação. A partir de então, parei de ter preconceito com produções britânicas.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Cold Mountain

( EUA 2003 ). Direção: Anthony Minghella. Com Jude Law, Nicole Kidman, Renée Zellweger, Eileen Atkins, Brendan Gleeson, Philip Seymour Hoffman, Natalie Portman, Giovani Ribisi, Donald Sutherland, Ray Winstone, Kathy Baker, James Gammon, Claire Hunnan, Jack White, Ethan Suplee, Jena Malone, Melora Walters. 154 min.


Sinopse: Em 1864, na Guerra da Sessessão Americana, jovem se alista para lutar pelo sul. Ao descobrir os horrores da guerra, resolve desertar. Dessa forma, é considerado como traidor e passa a ser perseguido pelas tropas. Enquanto isso, sua amada aguarda seu retorno, enquanto tenta administrar suas terras ao lado de uma jovem selvagem.

Comentários: Indicado a sete Oscar, Cold Mountain ganhou apenas na categoria atriz coadjuvante (Renée Zellweger). Foi indicado ainda para ator (Jude Law), montagem, fotografia, trilha sonora e canções (duas, uma de Sting, e outra da dupla T-Bone Burnet/Elvis Costelo). Na verdade foi o grande injustiçado do Oscar. Em um ano de produções fracas, Cold Mountain era o único que poderia bater o mega sucesso de O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei. Mas não foi indicado para filme, diretor (o melhor de Anthony Minghella, bem superior ao oscarizado "O Paciente Inglês"), atriz (Nicole Kidman esteve bem também em outros filmes do ano) e roteiro adaptado (do próprio Minghella, adaptado do romance de Charles Franzier). Na verdade, é fácil deduzir porque essas injustiças foram cometidas com este, que foi o melhor filme americano do ano: trata-se de um filme anti-americano (mesmo que não intencionalmente). Realizado no auge da desnecessária guerra dos EUA contra o Iraque, o tema central de Cold Mountain se posiciona totalmente contra qualquer tipo de guerra. E um roteiro assim mexe profundamente com o excelentíssimo (ex) presidente Bush e com qualquer patriota extremo de carteirinha. Por fim, é óbvio que vários votantes do Oscar pensam como Bush, o que acabou eliminando maiores possibilidades de outras indicações ao Oscar. Em todo caso, Cold Mountain é uma produção luxuosa e cativante, que consegue atrair a atenção da crítica (por sua posição perante a guerra) e do público (por sua narrativa bem novelesca). Ou seja, têm alguns excessos de sentimentalismo e final trágico mais ou menos previsível. Mas, isso não estraga a excelente mensagem e o corajoso posicionamento do diretor Minghella, em tempos de guerra. Quanto ao elenco, além de Nicole, o galã Jude Law mereceu sua indicação ao Oscar no papel do soldado desertor. E a estrela Renée Zellweger fez por merecer seu Oscar de coadjuvante, como a moça rebelde e meio masculinizada (mas não lésbica) que ajuda a personagem de Nicole no cuidado com a propriedade desta. E tem ainda boas interpretações de Donald Sutherland (o pai de Nicole), Kathy Baker (a vizinha que depois fica muda) e Natalie Portman (uma jovem mãe que oferece abrigo para Law).

Por que gravei o filme: Assisti a Cold Mountain no cinema, e fiquei bastante emocionado com o filme. Adorei tudo que vi na tela, e não perdi a oportunidade de gravá-lo quando passou na HBO. A mensagem anti-guerra, mencionada nos comentários, é a melhor coisa do filme de Minghella, e é interessante para discussões e debates sobre o tema. E todos os atores estão realmente bem nessa grande película, que merecia mais premiações. Não canso de assistir, e já coloquei o filme na lista dos melhores americanos dos anos 2000.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Uma Lição de Amor

( EUA 2001 ). Direção: Jessie Nelson. Com Sean Penn, Michelle Pfeiffer, Dakota Fanning, Laura Dern, Dianne Wiest, Loretta Devine, Richard Schiff, Brad Silverman, Rosalind Chao, Kimberly Scott, Mary Steenburgen. 132 min.


Sinopse: Homem deficiente mental, pai de uma garotinha, perde a guarda da filha por não ter condições intelectuais para sustentá-la. Solicita ajuda de uma atarefada advogada, e luta para conseguir ter a filha de volta.

Comentários: Excelente e comovente interpretação de Sean Penn como retardado mental. Por esse papel, inclusive, Sean foi indicado ao Oscar de melhor ator. Na verdade, o filme de Nelson (também autora do roteiro, em parceria com Kristine Johnson) reserva boas interpretações para todo o elenco: Michelle Pfeiffer continua linda, apesar da idade (na ocasião 43 anos), e interpreta muito bem a advogada, alternando momentos dramáticos e cômicos; Dianne Wiest tem papel pequeno, mas está magnífica como a vizinha e amiga de Sean; Laura Dern interpreta a mãe adotiva, e Mary Steenburgen tem ponta não creditada. Mas a estrela do filme, sem dúvida, é a talentosa Dakota Fanning, uma excelente atriz-mírim. Sua interpretação é convincente e segura, ela merecia ter sido indicada ao Oscar. E , além disso, a menina tem seguido grande carreira em Hollywood, algo bastante raro para crianças. Claro que a sua personagem, a garota Lucy (de apenas 7 anos) é madura demais para a idade. Certamente, nenhuma criança dessa idade conseguiria ser tão "adulta"como a personagem. Em todo caso, o filme é agradável; é repleto de várias canções pop-românticas, tem boa direção de arte e fotografia, e boas cenas cômicas, que impedem o filme de ser piegas demais. Esse alívio cômico fica por conta de Michelle Pfeiffer, propositalmente atrapalhada (apenas nas cenas certas, sem dúvida) e dos atores que interpretam os amigo de Sean Penn, todos coincidentemente débeis como o personagem de Sean: tem o fanático pelo filme "Kramer vs. Kramer", o super-protegido pela mãe, o que tem mania de perseguição... (a cena do tribunal, com as interrupções deles, são bem engraçadas). Mas, não se enganem: não é comédia, e sim drama. Daqueles bem sentimentais, açucarados, bonitinhos, e com final feliz. Sem grandes novidades, portanto. O melhor são as interpretações, sobretudo de Sean e Dakota.

Por que gravei o filme: Como disse, é um filme sem grandes novidades, apesar de interessante. Gravei na HBO2, principalmente pelo elenco estelar. Tenho gostado muito das mais recentes interpretações de Sean Penn; é um grande astro sem dúvida. E o elenco feminino traz grandes atrizes. Sou fã de carteirinha de Michelle Pfeiffer, e fico entristecido ao saber que a moça não tem emplacado muito em Hollywood. Ela era uma das grandes estrelas dos anos 80, já foi três vezes indicadas ao Oscar (a última vez foi em 92) e está meio sumida. Torço muito para o seu grande retorno. Laura Dern, outra que está desaparecendo, também é uma atriz que eu gosto e a veterana Dianne Wiest é sempre envolvente, mesmo quando suas personagens não roubam a cena. Tive, também, o prazer de conhecer a excelente Dakota Fanning. Concluo, afirmando que gosto do filme. Não sou muito exigente em relação aos roteiros (já sei que Hollywood está bem decadente para boas idéias). Além disso, é óbvio que Uma Lição de Amor não é um filme de arte; E se não é arte, é entretenimento. O filme cumpre essa missão; e se conseguiu isso, fez o seu trabalho.

sábado, 21 de março de 2009

Quem Quer Ser Um Milionário?

No mesmo shopping, após O Menino da Porteira, assitimos a essa belíssima película de um dos cineastas mais originais de todos os tempos, Danny Boyle ("Cova Rasa", Trainspotting - Sem Limites", "A Praia"). Eu quis assiti-lo apenas por curiosidade, afinal arrebatou diversos prêmios, inclusive 10 Oscar. Tais premiações são devidas, o filme é um espetáculo.

Sem contar com nenhum astro no elenco, Boyle contou uma história eletrizante, divertida, dramática, surpreendente... Enfim, um enredo que interessa a todos os gostos, tanto os amantes de filmes de artes, como o público de massas se envolvem facilmente com o filme. O fato mais curioso é que o roteiro de Simon Blaufoy (adaptado do livro de Vikas Swarup) é baseado em fatos reais.

A trama se passa na Índia da atualidade, em um programa de perguntas e respostas (bem ao estilo do Show do Milhão do Sílvio Santos). Um rapaz pobre de 18 anos, que trabalha numa central de call center como ajudante de limpeza, acaba tendo a felicidade de participar desse programa, um verdadeiro campeão de audiência em todo o país. O que surpreende é o fato de que esse rapaz favelado e sem cultura, conseguiu acertar todas as perguntas que foram feitas, e conquistou um prêmio de 10 milhões. Antes de responder a última pergunta, que vale 20 milhões, o moço é entregue para as autoridades, já que os responsáveis pelo programa, acreditam que ele fez algum tipo de trapaça. E é na delegacia que esse jovem conta sua história, com o objetivo de provar sua inocência. Chama a atenção, o fato de que cada pergunta respondida por ele, tem associação com sua nada fácil vida...

Mais não digo para não estragar. Nunca saí das salas de cinema tão empolgado como dessa vez. O ponto alto do filme é a originalidade do roteiro, ao mostrar uma Índia totalmente longe dos esteriótipos que normalmente associamos com esse país (por exemplo, não me recordo de ter visto um elefante durante toda a projeção). Ao acompanhar a trajetória do protagonista, na infância, na adolescência e na atualidade, a câmera de Boyle registra os guetos da índia, a corrupção, as injustiças sociais, a marginalidade, e um aspecto urbano pouco conhecido daquele país: o excesso de favelas. Ou seja, tudo aquilo que você não encontra na novela de horário nobre da globo.

Os nomes mais famosos do filme são os de Dev Patel, que faz o protagonista, e de Freida Pinto, que interpreta a mulher amada do herói. Ambos se tornaram famosos pelo filme, e com certeza Freida filmará em Hollywood. Quanto a Patel é difícil dizer, já que não é nenhum galã (no entanto, não podemos nos esquecer que o feioso Adrien Brody é astro nos States...). E o elenco infantil é uma atração a parte.

A conclusão é espetacular e um alívio para os espectadores que se deixam envolver com a triste trajetória do herói. Concluindo, Quem Quer Ser Um Milionário?, ou o Cidade de Deus da índia, é o filme-pipoca mais artístico do ano, além de trazer uma grande aula de sociologia. Não deixem de assistir. Definitivamente, imperdível!

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O Menino da Porteira

Olá, estou de volta, depois de uma certa ausência. Tive problemas no meu computador, mas creio que isso brevemente será solucionado...

Já faz algumas semanas que eu e a minha esposa assistimos a esse filme que ela tanto quis ver, e eu a acompanhei (não tive escolha, rssss). Em todo caso, como eu gostei (e muito) de Dois Filhos de Francisco, resolvi encarar numa boa essa refilmagem de uma prdocução antiga, estrelada por Sérgio Reis e inspirada na canção tema interpretada pelo próprio Reis.

Quanto ao filme, o personagem título, o garoto Rodrigo, é interpretado pelo estreante João Pedro Carvalho. O que posso dizer sobre esse menino, é que ele realmente é cativante e encanta o público com seu jeitinho caipira de falar; certamente aparecerá em alguma novela da globo... Bom, mas a história é conhecida por todos, graças a popularidade da música. O menino Rodrigo adora observar os bois entrando e saindo pela porteira de uma fazenda controlada por um coronel ranzinza (José de Abreu). Além disso, faz amizade com o boiadeiro Diogo, a quem diz constantemente: "Toca o berrante seu moço!". Paralelo a isso, Diogo (interpretado pelo cantor sertanejo Daniel, que parece estar decidido a encarar outra área) se envolve emocionalmente com a enteada do coronel, feita por Vanessa Giácomo, e compra uma briga com o padrasto da moça, que explora os peões inescrupulosamente.

O filme não é de todo ruim, é até um passatempo interessante, mas facilmente esquecível. Daniel só abre mesmo a boca pra cantar diversas músicas (inclusive a canção título), e têm poucos diálogos em cena. O cineasta Jeremias Moreira (é o mesmo da filme anterior, e assina o roteiro junto com Carlos Nascimbeni) constrói personagens em excesso, que acabam sendo mal-desenvolvidos em filme com metragem curta como esse (como a solteirona feita por Rosi Campos, que serve como alívio cômico, mas que logo some). Outro momento desnecessário, foi o acréscimo de um "bang-bang" brega e bem maniqueísta, protagonizados por Daniel e Zé de Abreu, que acaba comprometendo o resultado final, o tornando menos trágico ao partir do pressuposto "Dente por dente, olho por olho". Creio não estar revelando nada, pois quem não viu o filme anterior, mas que pelo menos conhece o desfecho da canção, sabe que o final é triste.

Enfim, gostei mesmo pela presença do menininho, bastante carismático. Mas Daniel deveria permanecer na carreira de cantor apenas. Atenção para uma ponta do pai do cantor, que aparece em uma mesa de bar junto com colegas, ouvindo as canções de Daniel. No todo é até bonitinho, mas esquecível. O melhor foi o outro que assitimos no mesmo dia, e no mesmo (adivinhem...?) cinema do Shopping Parque Santana. Mas isso é assunto pra outra postagem. Até!

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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Thelma e Louise

( EUA 1991 ). Direção: Ridley Scott. Com Susan Sarandon, Geena Davis, Harvey Keitel, Brad Pitt, Michael Madsen, Christopher MacDonald, Lucinda Jenney, Timothy Carhart, Sonny Carl Davis, Stephen Tobolowsky, Jason Beghe. 129 min.



Sinopse: Duas amigas resolvem fazer uma viagem, com o intuito de atravessar o estado. Entretanto, acabam cometendo um assassinato em legítima defesa, e tornam-se fugitivas. Decidem fugir para o México, enquanto são perseguidas pela polícia.

Comentários: Famoso road-movie indicado a seis Oscar, ganhou o de roteiro original (de Callie Khouri). Foi indicado ainda para diretor, atrizes (Susan Sarandon e Geena Davis), montagem e fotografia. O cineasta Ridley Scott ressurge em boa forma, após alguns anos sem ostentar o brilho de filmes como "Alien - O Oitavo Passageiro" e "Blade Runner - O Caçador de Andróides", e fez uma película envolvente e interessante com as duas estrelas em grande forma. Sarandon interpreta Louise, uma garçonete séria e amargurada com um segredo do passado, que resolve embarcar numa viagem pelo deserto americano ao lado da amiga Thelma. Esta, é interpretada por Geena Davis (como seu olhar vesgo, mas em grande performance), uma dona-de-casa rotineira, casada com um homem bruto e ignorante, que sempre a deixa relegada em segundo plano. Juntas, encaram várias situações que surgem em seus caminhos, e descobrem um pouco mais sobre elas mesmas, através de suas ações. A partir desse universo feminino, Scott coloca as personagens num cenário, em que ambas têm de enfrentar o machismo e a intolerância masculina, ao mesmo tempo que fortalecem os seus laços de amizade. Uma das cenas mais famosas, e que foi muito imitada em filmes satíricos, é aquela em que as garotas são importunadas na estrada por um motorista de caminhão, velho e nojento. Enfim, com final aberto e passível de inúmeras interpretações, Thelma e Louise é um espetáculo geralmente adorado por mulheres, e também apreciado por homens, graças ao excelente roteiro de Callie Khouri, à experiência de Ridley Scott e, principalmente, às interpretações de Susan Sarandon e Geena Davis. Quanto aos demais atores do elenco, os destaques vão para Harvey Keitel (como o policial que se interessa pela história das moças), Christopher McDonald (como o grosseiro marido de Geena) e o galã Brad Pitt, em início de carreira, como um assaltante de estrada. Um bom passatempo que entretêm e envolve na dose certa.

Por que gravei o filme: Gravado no AXN. É um dos meus filmes prediletos, e sem dúvida, o melhor que Ridley Scott fez nos anos 90. Admirei bastante a forma como o cineasta mostrou o quanto uma viagem, regada a crimes e perseguições, pode modificar duas vidas banais e sem grandes perspectivas. Ou seja, é um filme sobre a descoberta de si mesmo e sobre o respeito e a valorização que todo o ser humano tem direito. Por fim, torno a comentar sobre as duas atrizes do filme, realmente extraordinárias. Contudo, a minha favorita é Susan Sarandon, uma das figuras mais humanas e verdadeiras do cinema americano, além de ser boa cidadã na vida real também. Thelma e Louise é para ser sempre revisto e discutido.