quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Minority Report - A Nova Lei

( EUA 2002 ). Direção: Steven Spielberg. Com Tom Cruise, Colin Farrell, Samantha Morton, Max von Sydow, Lois Smith, Tim Blake Nelson, Peter Stomare, Kathryn Morris, Arye Gross, Jessica Harper, Ana Maria Horsford, Patrick Kilpatrick, Jessica Capshaw. 148 min.



Sinopse: No futuro, a criminalidade é quase inexistente, graças a um programa altamente avançado e desenvolvido que, através de imagens produzidas pela mente de pessoas inconscientes, identifica os crimes que ainda serão praticados. Um policial passa a desconfiar desse sistema, quando é descoberto que ele mesmo cometerá um assassinato em breve.

Comentários: Como se pode esperar de qualquer produção spielbergiana, temos em Minority Report uma produção técnicamente perfeita e caríssima. Ou seja, grandes efeitos especiais e visuais, excelente edição de som (indicada ao Oscar) e bons momentos de perseguição e suspense, além da enorme duração, 148 minutos (se é filme de Spielberg, tem que ter mais de 120 minutos, no mínimo!). O roteiro de Scott Frank e Jon Cohen, adaptado do livro de Philip K. Dick (o mesmo de Blade Runner - O Caçador de Andróides) oferece bons argumentos e uma história curiosa e interessante. Entretanto, claro que as boas idéias se tornam convencionais a partir do meio do filme, e os habituais clichês surgem inevitávelmente. Tom Cruise, em sua primeira parceria com Spielberg, soa a camisa, foge daqueles que querem capturá-lo e tenta provar sua inocência. Conta com a ajuda da mocinha Samantha Morton, após a indicação ao Oscar por "Poucas e Boas", que interpreta a cobaia para o projeto anti-criminalidade. Através da mente dela, o personagem de Cruise tenta descobrir a verdade sobre o crime que ele cometerá. E os clichês não param: o veterano Max von Sydow interpreta o mentor de Cruise, fazendo o típico personagem que ainda confia no inocente acusado, enquanto todos querem prendê-lo; Colin Farrell, o novo galã de Hollywood, faz o jovem policial arrogante que se antipatiza com o herói; Lois Smith atua em personagem semelhante ao Oráculo de Matrix (ou seja, fornece pistas ao herói, mas deixa o resto por conta dele). Uma surpresa, no entanto, é a personagem de Kathryn Morris, a ex-esposa de Cruise, que tinha uma rápida cena no meio do filme, e que ressurge para contribuir na desvendação final. Mas, como muitos filmes do gênero, a identidade do grande vilão não causa muita surpresa. Em todo caso, Minority Report, mesmo sem ser um novo Blade Runner, é um filme que alerta sobre os possíveis perigos das novas descobertas científicas e os equívocos que elas podem causar. Tudo isso é mostrado com grandes seqüências de ação e cenas curiosas e espetaculares (sobretudo, a operação nos olhos de Cruise), garantindo um bom divertimento, principalmente se o filme for assistido em DVD.

Por que comprei o filme: Comprei Minority Report no famoso Sebo do Messias por um preço bem mixuruca. E eu não iria perder a oportunidade de adqüirir essa super-produção milionária de Spielberg por apenas de R$ 2,00. Além disso, gosto do filme. Tem clichês sim, mas tem um roteiro interessante e conclusão que não decepciona. E também, deve-se levar em consideração que não é fácil fazer um filme de ação e ficção científica (principalmente nos dias de hoje) sem cair no clichê. Eu apenas percebo que Tom Cruise já está ficando um tanto decadente no gênero, mas isso não compromete as boas seqüências de adrenalina que assistimos na tela.

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quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Em Busca da Terra do Nunca

( EUA 2004 ). Direcão: Marc Foster. Com Johnny Depp, Kate Winslet, Dustin Hoffman, Julie Christie, Rhada Mitchell, Freddie Highmore, Joe Prospero, Nick Roud, Ian Hart, Kelly MacDonald. 101 min.


Sinopse: Em 1903, o escritor James M. Barrie se inspira em uma família formada por uma jovem mãe, seus quatro filhos e a megera avó destes, e compõe o clássico da literatura infantil: Peter Pan e os Piratas. Tudo isso ocorre num momento em que sua carreira não está bem e seu casamento, instável.

Comentários: Filme indicado a sete Oscar, ganhou trilha sonora. Foi indicado ainda para filme, ator (Johnny Depp), roteiro adaptado (de David Magee, da obra de Allan Knee), montagem, direção de arte e figurinos. Foi uma grata surpresa assistir mais uma bem-sucedida produção dirigida pelo cineasta de "A Última Ceia", Marc Foster. Seu filme é técnicamente perfeito, com excelentes fotografia e figurino, bem cuidada direção de arte e a leve trilha sonora ganhadora do Oscar. Além disso, o roteiro bem inspirado de Magee tráz uma história sensível e envolvente, com Depp em grande forma como o escritor James M. Barrie. O ator finalmente demonstra que tem competência para papéis mais sérios e tem uma interpretação bastante diferenciada dos personagens esquisitos e excêntricos que costuma fazer. Os momentos de inspiração do personagem, que através da imaginação cria histórias mirabolantes e aventurescas, são retratados com bom humor e sensibilidade. Kate Winslet comove com a mãe doente em ano que foi indicada ao Oscar, por outro filme: "Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças". Realmente, é uma atriz bastante talentosa. Julie Christie retorna aos cinemas como mãe de Kate e Dustin Hoffman tem papel pequeno como produtor teatral. Não gosto muito da atriz que interpreta a esposa de Depp, Rhada Mitchell, em atuação fria e robotizada. Sempre com a mesma expressão, parece sempre estar sussurrando. E o ator mírim Freddie Highmore, como a inspiração do Peter Pan, brilha menos do que em "A Fantástica Fábrica de Chocolate", do mesmo ano e também com Depp. Mas o elenco infantil, em sua totalidade, é competente, salvando os estragos de Freddie. Bastante comovente, agrada adultos e crianças.

Por que gravei o filme: Gravei na HBO2, simplesmente porque é o filme americano mais emocionante de 2004, isso sem cair no piegas. Em Busca da Terra do Nunca é encantador e envolvente, e prende a atenção do espectador a cada cena que é mostrada. Gosto muito do trabalho do promissor Foster e aprendi a admirar a atuação de Johnny Depp e me encantei mais uma vez com a talentosa Kate Winslet. Enfim, com tantas produções repletas de clichês e descartáveis que estouram em Hollywood, o filme de Foster se destaca como uma sensível novidade. E das boas.

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sábado, 4 de outubro de 2008

Insônias de um cinéfilo angustiado

Parece até título de filme, né? Mas são apenas insônias. Não tenho como dormir, embora eu preciso muito fazer isso. Aproveito a ocasião, então, para esclarecer algumas coisas:
1) Já assisti a todos os meus (1000?) filmes. Os que aparecem registrados aqui foram sorteados. Pois é! Tenho como hobby, sortear os filmes da minha coleção. Assim, os revejo e faço comentários. É claro que não foram sorteados todos os filmes; afinal, eu não tenho tempo para me dedicar exclusivamente a eles. Todavia, quando entrar de férias, pretendo continuar com os meus sorteios e comentários.
2) Apenas para diferenciar, adiciono um curto comentário denominado "Por que gravei o filme" ou "Por que o comprei".
3) Não quero me restringir apenas à minha coleção; Intenciono também resenhar sobre filmes que estão em cartaz no cinema. Isso ocorrerá no instante em que eu comparecer em uma das salas paulistanas (esse ano, inacreditavelmente, não fui ao cinema!).
4) Quero comentar também sobre livros e músicas, mesmo que em quantidade menor. Ultimamente, tenho me aproximado bastante dessas duas manifestações (sobretudo a música brasileira, que eu estou adorando curtir).
5) Preciso dar um jeito de me livrar dessa insônia, e de tantas preocupações. Há uma cama aconchegante e uma mulher maravilhosa me aguardando no meu adorável quarto. Não
vejo a hora de ir até lá! Essa noite, por fim, está bem misteriosa, inquieta, viva, devoradora, fascinante, atraente... Ela me faz recordar que há um filme primordial que eu preciso estar sempre atento. Ele se chama: Vida Particular de Rob Seixas. Ela, a noite, me diz: "acorda, rapaz! Acorda, para dormir. Eu estou aqui para isso, para te alertar sobre isso. Agora é a sua hora. Você até pode comentar o neo-realismo do cinema itaiano com "Ladrões de Bicicleta", ou dar imensas gargalhadas inocentes com "Os Caça-Fantasmas". Mas, agora você precisa se lembrar que o seu filme é real, e a tendência para o final feliz somente depende de você". Essa é a noite.
Minha mulher acordou, e sente minha ausência... Preciso lembrá-la que a amo. Estou com medo de continuar aqui. Ok,noite! Vou para cama. Gisele, cheguei...

Crash - No Limite

( EUA 2005 ). Direção: Paul Haggis. Com Brendan Fraser, Sandra Bullock, Matt Dillon, Ryan Phillippe, Don Cheadle, Thandie Newton, Jennifer Esposito, Tony Danza, Keith David, William Fitchner, Terrence Howard, Loretta Devine, Laurenz Tate, Marina Sirtis, Daniel Dae Kim, Kathleen York. 122 min.



Sinopse: O cotidiano de vários personagens que acabam se cruzando: Um político e sua esposa, dois marginais, um casal de policiais, outra dupla de policiais, um diretor de tv e a mulher, uma família persa, um trocador de fechaduras... Todos eles, envolvidos em acidentes de automóveis, crime racial, acidente doméstico e tragédias do destino.

Comentários: Crash-No Limite surpreendeu a todos quando faturou o Oscar 2006 de melhor filme no lugar do então favorito, "O Segredo de Brockeback Mountain". Além de melhor filme, ganhou também nas categorias roteiro original (do diretor Haggis e Bobby Moresco) e edição. Foi indicado ainda para diretor, ator coadjuvante (Matt Dillon) e canção ("In the Deep"). O filme apresenta um gênero bastante apreciado por Hollywood, o de várias tramas paralelas que acabam se cruzando na conclusão (tal como algumas fitas de Robert Altman). O tema central é a intolerância racial. Haggis apresenta a cidade de Los Angeles composta por várias etnias: brancos, negros, persas, latinos, todos eles convivendo nem sempre de uma forma pacífica. Cada personagem deixa bem claro seu ponto de vista em relação ao racismo, e a partir de então, Haggis mostra ao público as trocas de valores que cada um deles acaba se submetendo, quando acontece o inesperado. Enfim, os personagens acabam aprendendo lições de vidas, o que possibilita uma reflexão sobre as atitudes e os pensamentos que tinham a cerca da intolerância. Matt Dillon, no papel do policial racista, foi indicado os Oscar como coadjuvante, merecidamente. Mas não dá para dizer quem do elenco está melhor, pois todos atuam muito bem. Além de Dillon, Don Cheadle (também um dos produtores) tem boa parceria ao lado de Jennifer Esposito, ambos como o casal de policiais amantes; Terrence Howard e Thandie Newton têm forte presença em cena, como o casal que sofre abuso racial e sexual do tira interpretado por Dillon; Ryan Phillippe está mais maduro que de costume como o policial bonzinho; E Sandra Bullock, apesar de poucas cenas, está séria e perfeita em papel que talvez seja o seu melhor, até o momento. O mérito, portanto, é do diretor Haggis, que amarra muito bem as estórias paralelas, consegue criar um clima envolvente e impactante, além de trazer surpresas irônicas e inesperadas no destino de suas personagens. Crash - No Limite merece, sem dúvida, ser melhor conhecido pelo público brasileiro, por tratar de um assunto sério e bastante atual. Merecidamente ganhador do Oscar de melhor filme (de fato, é superior a Brockeback Mountain), a fita de Haggis se consagra como uma das melhores produzidas na década.

Por que gravei o filme: Quando tive a instantânea oportunidade de possuir os cinco canais telecines abertos na minha tv por assinatura, não pensei duas vezes, e gravei Crash-No Limite no telecine premium. Eu já havia assistido ao filme no cinema, e simplesmente o achei formidável, principalmente porque sou fã de filmes com tramas paralelas e excesso de personagens. Gosto muito da mensagem anti-violência e intolerância que o filme trás, e de algumas cenas e frases de alguns personagens. Por exemplo, a última frase da personagem de Sandra Bullock para a sua empregada é magnífica e bem humana; as reviravoltas do destino que trazem conseqüências, tanto negativas como positivas, para os personagens de Ryan Phillippe e Matt Dillon são surpreendentes; e a cena em que o oriental tenta "acertar os ponteiros" com o trocador de fechaduras, mas é impedido pela filha deste, é das mais impactantes do filme. Conclusão: amo o filme e não canso de assistí-lo.

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sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças

( EUA 2004 ). Direção: Michel Gondry. Com Jim Carrey, Kate Winslet, Kirsten Dunst, Mark Ruffalo, Tom Wilkinson, Elijah Wood, Jane Adams, David Cross, Deidre O'Connell. 108 min.


Sinopse: Joel, ao descobrir que sua amada Clementine resolveu apagar da mente as lembranças que ela tinha dele, resolve fazer o mesmo quando procura o Dr. Howard Mierzwiak. Os problemas acontecem quando eles se encontram por acaso, se apresentam e passam a se relacionar novamente.

Comentários: Uma das produções mais originais e envolventes do ano de 2004, Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças levou o Oscar de roteiro original (de Charlie Kaufman, Michel Gondry e Pierre Bismuth), além de ter recebido indicação de melhor atriz para Kate Winslet. Sem sombra de dúvida, o roteirista Charlie Kaufman é o rei do pedaço de Hollywood, em tempos dominados por idéias fracas e história repetitivas. Assim como já havia feito nos ótimos "Quero Ser John Malkovich" e "Adaptação", Kaufman volta a inovar seu talento próprio e diferente de contar histórias bizarras e interessantes, além de contar com o co-roteirista Gondry na direção. Brilho Eterno é definido por uns como drama, e por outros como comédia romântica, mas é um filme sobre o amor. A impressão que o público sente, quando se chega a conclusão do filme, é a de que os relacionamentos amorosos duradouros podem até ser desgastantes, mas sempre deixam marcas e certas saudades. Afinal, se na realidade existisse um medicamento semelhante ao usado pelos protagonistas do filme, ou seja, "um apagador de memórias", certamente poderíamos nos livrar de nossos pares amorosos, que se tornaram chatos (e até de alguns amigos inconvenientes). Mas, o que aconteceria se, por obra do acaso, fôssemos apresentados à aquelas pessoas que optamos em esquecer? De acordo com o roteiro de Kaufman, voltaríamos a sentir afeto por elas. Além de contar com um excelente roteiro, o que chama a atenção em Brilho Eterno é o seu protagonista: Jim Carrey. Se alguém ainda tinha dúvidas sobre a performance do ator em cenas dramáticas, o filme de Gondry faz questão de deixar bem claro que Carrey é um ator versátil, e se sai muito bem em papéis dramáticos. Até o momento, nunca se viu Jim Carrey em um papel discreto, tímido, comportado e deprimido (ele até chora em cena). Claro, no meio do filme ele faz algumas comédias, mas a seriedade com que ele desempenha o personagem é bastante convincente. Todavia, a Academia mais uma vez esnobou o talento de Carrey, e não o indicou ao Oscar. A estrela da fita, Kate Winslet, por sua vez, foi indicada à estatueta, num personagem que é o opsto do de Carrey: uma mulher desiquilibrada, escandalosa, esquisita e caricata. É verdade que Kate é boa atriz, e até rouba a cena de Carrey em alguns instantes, mas ele não fica muito atrás. Ainda no elenco, Elijah Wood e Mark Ruffalo interpretam os cientistas que controlam o medicamento, e Kirsten Dunst faz a recepcionista do dr. Mierzwiak (Tom Wilkinson). Enfim, Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, é um filme magnífico e extraordinário, curioso e original, muito bem roteirizado, e com Jim Carrey e Kate Winslet em excelentes performances.

Por que comprei o filme: Encontrei a fita em uma locadora que já estava se desfazendo dos VHSs. E essa bem-sucedida comédia dramática me custou apenas R$1,50. Com isso, eu descobri que as fitas de vídeo em locadoram são mais barateadas que em sebos. Bom, quanto ao filme, eu o considero como um dos melhores do ano de 2004, e que reconheceu (finalmente) o talento do roteirista Charlie Kaufman, que já tinha feito o espetacular (e até melhor) Quero Ser John Malkovich. E Jim Carrey se consagra aqui em seu melhor papel no cinema. Tudo isso reunido em um filme só deveria servir de incentivo e apelo para que surjam novas boas idéias em Hollywood.

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Short Cuts - Cenas da Vida

( EUA 1993 ).Direção: Robert Altman. Com Jack Lemmon, Andie MacDowell, Tim Robbins, Madeleine Stowe, Julianne Moore, Robert Downey Jr., Jennifer Jason-Leigh, Anne Archer, Matthew Modine, Frances McDormand, Peter Gallagher, Lily Tomlin, Bruce Davison, Fred Ward, Tom Waits, Lili Taylor, Chris Penn, Lori Singer, Annie Ross, Lyle Lovett, Buck Henry, Huey Lewis. 184 min.


Sinopse: Enquanto epidemia de moscas se alastra por uma cidadezinha do sul da Califórnia, vinte e duas pessoas vivem momentos dramáticos, cômicos e agitados, e suas vidas são cruzadas em situações típicas do cotidiano.

Comentários: Sem dúvida nenhuma, Short Cuts - Cenas da Vida é o melhor filme da recente safra dirigida pelo veteraníssimo Robert Altman. Ele já havia feito no ano anterior o interessante "O Jogador", mas conseguiu maiores destaques com essa fita, em que ele conseguiu ser indicado ao Oscar como diretor. Ao lado de Frank Barhydt, Altman adaptou contos de Raymond Carver para o seu roteiro muito bem elaborado, sensível, poético e humano. A idéia dos roteiristas em colocar a invasão das moscas como prólogo no filme é bem original, e demonstra que alguma coisa tem que ser feita para deter as doenças provocadas por elas. Após isso, os diversos personagens são apresentados, e o público começa a sentir que as vidas deles enfrentam problemas tão sérios, quanto a cidade em relação às moscas. Percebe-se, a partir daí, o pessimismo de Altman em relação ao ser humano, já que ele faz uma analogia entre uma cidade ameaçada por moscas e a vida do homem. Em todo caso, Short Cuts apresenta fatos comuns e próximos da realidade. Afinal, a tragédia, o acidente, a traição matrimonial, a alegria, a melancolia, o estresse, a violência são componentes constantes no mundo dos seres. Aqui, não há heróis ou vilões, mas sim, cafajestes, mentirosos, depressivos, infiéis, sentimentais, amorosos, enfim os mais comuns comportamentos humanos. Quanto ao elenco, todos estão de parabéns e fica bem difícil saber quem leva a melhor, pois o conjunto está bem entrosado na direção firme de Altman. Mas alguns personagens curiosos merecem atenção especial: o ex-marido inconformado (Peter Gallagher) que, na ausência da ex-esposa, destrói os móveis dela com a maior calma e tranqüilidade; a mulher do tele-sexo (Jennifer Jason-Leigh), que trabalha em casa, e conversa com os clientes no mesmo instante em que está trocando as fraudas do bebê; a palhaça (Anne Archer) que atende crianças pequenas em hospitais e já sai de casa vestida a caráter. Além disso, alguns atores fornecem muita sensibilidade na composição de pessoas bem humanas, como Andir MacDowell no papel da mãe que sofre com o acidente do filho pequeno, que foi atropelado; Tim Robbins como o policial cínico e infiel; Julianne Moore, a esposa que revela ao marido que já lhe foi infiel; Jack Lemmon, que faz o avô da criança atropelada; Annie Ross e Lori Singer, como mãe e filha, além de artistas do mundo musical e que tem problemas de relacionamento. Enfim, é tarefa difícil identificar a melhor interpretação. Short Cuts surpreende o espectador constantemente nas ações das personagens (há inclusive, um assassinato no fim, bem chocante). E se consagra como um dos melhores filmes de 93, deveria ter tido mais atenção no Oscar.

Por que gravei o filme: Foi uma grande surpresa eu ter descoberto, por acaso, que esse filme passaria no telecine cult, no período em que este canal estava com sinal aberto. E não existia momento mais conveniente para o filme ser exibido, já que eu não assino os canais telecines. Além disso, eu estava, há tempos, querendo comprar essa fita, hoje difícil de achar em VHS (e nem sei se ela já foi lançada em DVD). Enfim, quanto aos fatos narrados por Altman e Barhydt, me incomodo apenas com o assassinato no fim do filme, praticado por um dos personagens centrais, e que surge de uma forma explosiva e inesperada. Mas isso não estraga o todo, e a película de Altman é envolvente e extraordinária.

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quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Laranja Mecânica

( Inglaterra 1971 ). Direção: Stanley Kubrick. Com Malcolm MacDowell, Patrick Magee, Adrienne Corri, Miriam Karlin, Michael Bates, Philip Stone, Sheila Raynor, Warren Clarke, Anthony Sharp. 135 min.


Sinopse: Num futuro indeterminado, jovens violentos causam o caos em todo mundo, espancando mendigos e idosos, e estuprando garotas indefesas. Um deles, Alex, é capturado pela polícia e passa por um processo de lavagem cerebral, financiado pelo governo, com o intuito de diminuir a violência.

Comentários: Um dos filmes mais provocadores e impressionantes de todos os tempos, Laranja Mecânica recebeu quatro indicações no Oscar: filme, diretor, roteiro adaptado (do próprio Kubrick, através do romance de Anthony Burgess) e edição, mas acabou não levando nenhuma estatueta. O inovador Kubrick, assim como já havia feito com o extraordinário "2001 - Uma Odisséia no Espaço", utilizou cenários futuristas diferentes e exóticos, na construção dos cômodos e móveis das casas dos personagens, e do bar que serve como point para os protagonistas do filme. Enfim, umas arquiteturas surpreendentes, jamais vistas antes (exceto em 2001), e mereciam, ao menos, ser lembradas pelo Oscar na categoria direção de arte. Quanto ao roteiro adaptado pelo próprio genial Kubrick, é perturbador e resiste a debates e discussões nos dias de hoje. A sociedade apresentada pelo cineasta é controlada pela violência promovida por grupo de delinqüentes juvenis, que passa o tempo tomando leite nos bares (!), duelando com grupos rivais, torturando anciãos e estuprando mulheres. Tal cotidiano é mostrado de uma forma comum e natural, e estes jovens parecem ter o domínio de todos. Quando o líder deles (interpretado de uma forma caricata e amalucada, mas convincente por Malcolm McDowell) é capturado pela polícia, passa a servir como "cobaia" para testes de cientistas que têm o objetivo de reduzir a violência. Enfm, o personagem passa por um processo de lavagem cerebral, e começa a sentir náusea e aversão ao sexo e à violência. A partir de então, Kubrick faz uma crítica ao estado opressivo e ditador, que extermina a liberdade do ser humano, e o condiciona a uma laranja mecânica, ou seja, coloca o homem como alguém que não reflete, e age de acordo com a vontade de quem tem o poder (no caso, o governo). Por outro lado, tal lavagem cerebral surge para acabar com o caos e a desordem provocados pelos jovens. Afinal, aceitar a liberdade do cidadão em estuprar e espancar o outro, é o mesmo que ser conveniente com tudo aquilo que fere os direitos humanos. Em contrapartida, a livre expressão de pensamento também é um direito humano, e se violada (mesmo se por um bom motivo) contribui para a o estado de manipulação sofrido pelo homem. Enfim, Kubrick apresenta uma faca de dois gumes mostrando duas situações imorais e ausentes dos padrões éticos para a vida. E o que se deve fazer: acabar com a violência, ainda que de uma forma ilegal, ou defender a liberdade, e permitir que o caos continue existindo na sociedade? Uma questão que exige muita reflexão, mesmo porque a manipulação mental e a violência pesistem em nossos dias. O filme apresenta belas canções, desde a nona sinfonia de Beethoven (que tem grande importância na história) até o clássico cantado por Gene Kelly em "Cantando na Chuva". McDowell tem um ar de cínico e constrói um personagem irritantemente antipático ( muitas vezes, sentimos vontade de entrarmos em cena e estraçalhá-lo). O final é arrebatador e irônico, além de dúbio. Finalmente, chegamos a conclusão de que o bem venceu... e o mal também. Definitivamente, Laranja Mecânica é uma obra-prima do cinema.

Por que gravei o filme: Tudo o que foi dito acima despensa maiores comentários. Laranja Mecânica, afinal, precisa ser analisdo, discutido e debatido constantemente; é um filme obrigatório. Descobri tudo isso depois que o gravei no Cinemax, já que antes nunca o havia assistido, embora conhecesse o filme. Já o utilizei em sala de aula na minha disciplina, filosofia. Lembro que eu precisei gravar o filme em DVD, já que o vídeo da escola não funcionava. Todavia, os excessos de violência (sobretudo sexual) desagradam bastante o público que não está habituado aos filmes de Kubrick. Por isso, não tive uma boa recepção quando tentei exibi-lo em uma sala de suplência. Ainda assim, acredito ser importante a divulgação dele, e pretendo encontrar alguma estratégia para exibí-lo novamente. Sem mais.

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